"A língua é o inimigo visceral da fé, e tudo o que por ela for tocado ficará imune à intervenção do divino. Toda palavra é uma espada flamejante do diabo, e a língua como um todo é um único protesto contra as limitações do intelecto, um grito de articulação contra o inefável, um brado de guerra contra a divindade, uma expressão da inveja do intelecto humano dirigida contra Deus.
[...]
Somos indivíduos, somos intelectos individuais, porque consistimos de palavras (expressões da inveja diabólica contra Deus) consolidadas pela gramática (expressão da avareza diabólica que tenta preservar a realidade por ele criada). A mente humana, essa suprema ilusão de realidade, é a obra mais perfeita do diabo, e é neste sentido que a nossa insistência avarenta na manutenção da nossa individualidade é o triunfo supremo do diabo. O nosso empenho em prol da língua (que é o empenho em prol do nosso intelecto), e nosso empenho em prol da propagação do enriquecimento da língua (que é o empenho em prol da imortalidade do nosso intelecto), é o ponto culminante da carreira gloriosa do diabo. A superação da língua, que seria o abandono do intelecto, implica a perda da nossa individualidade, e, do ponto de vista oposto ao diabo, a salvação da nossa alma"
- Vilém Flusser, A História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, pp.149-150.
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segunda-feira, 5 de abril de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
"Estamos emergindo sempre do silêncio primordial e ingênuo que é o paraíso"
"Voltemos, para interpretar a teia lingüística que é o pensamento, ao mito da expulsão do paraíso. Essa expulsão é portanto equivalente a uma expressão, a um grito. Cada palavra é um grito assim, e com cada palavra que pensamos, com cada conceito que formulamos, estamos sendo expulsos do paraíso. A corrente das palavras, a conversação, é o rio que nos arrasta das nossas origens, e pelo indizível que se esconde entre as palavras estamos sempre nas proximidades das nossas origens. Desse indizível, dessas aberturas que a língua conserva para o nada, é que brotam sempre novas palavras, novos pensamentos. Estamos emergindo sempre do silêncio primordial e ingênuo que é o paraíso. Com efeito, essas nossas aberturas para o silêncio ingênuo, essa nossa capacidade para o espanto ante o nada, essa nossa capacidade de gritar o nosso espanto, é sinal da nossa autenticidade. É sinal que ainda estamos na proximidade misteriosa do nada"
- Vilém Flusser, "Pensamento e Reflexão", Da Religiosidade. A literatura e o senso da realidade, São Paulo, Escrituras, 2002, pp.43-44.
- Vilém Flusser, "Pensamento e Reflexão", Da Religiosidade. A literatura e o senso da realidade, São Paulo, Escrituras, 2002, pp.43-44.
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